À sociedade brasileira, às autoridades públicas, aos moradores do Bairro da Lapa e Altos da Lapa – São Paulo/SP e a todos aqueles comprometidos com a dignidade humana,
A Associação Cuidadosa expressa seu veemente repúdio às manifestações destacadas na reportagem “Moradores pressionam e gestão Nunes expulsa casas de repouso para idosos da Lapa”, publicada pelo jornal Folha de São Paulo em 25 de maio de 2026. Entendemos que os argumentos apresentados vão muito além de questões urbanísticas, administrativas ou meramente relacionadas à convivência, evidenciando problemáticas muito mais profundas e estruturais. Elas expõem, de forma contundente, o idadismo estrutural presente na sociedade brasileira.
Quando ambulâncias, carros funerários, pessoas idosas frágeis, residentes que gritam ou manifestam sofrimento passam a ser percebidos como elementos indesejáveis de uma paisagem urbana, é preciso perguntar: o que exatamente está sendo rejeitado? As residências para idosos, conhecidas como Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPI) ou a própria velhice?
Esse movimento de ocultamento do envelhecer acontece porque o processo de envelhecimento nos obriga a encarar a finitude, a vulnerabilidade e tudo aquilo que preferimos negar. No entanto, envelhecer é parte integral da existência; é destino de todos. Envelhecer é condição humana. Morrer também.
Diversas questões urgentes nos desafiam: Por quais motivos os referidos gritos, dores e sofrimentos causam desconforto? Em que momento uma comunidade passa a enxergar o cuidado como algo indesejável ou até mesmo ameaçador? Qual é o tipo de sociedade em que serviços dedicados ao cuidado, à proteção e à dignidade das pessoas são vistos como obstáculos à convivência? Será que tais serviços só são aceitos quando atendem a grupos considerados produtivos, autônomos e “merecedores” de investimento e presença? E, indo além, não seria possível que todo esse incômodo e resistência estejam, na verdade, encobrindo interesses ligados à especulação imobiliária, que talvez seja a verdadeira origem desse conflito? Essas reflexões tornam-se ainda mais necessárias diante da complexidade do cenário apresentado.
O desconforto expresso diante da presença de ambulâncias e veículos funerários próximos a essas residências de cuidados não expõe apenas uma questão de vizinhança. Não permitir a existência de uma ILPI no bairro não eliminará o envelhecimento nem a realidade de quem precisa de cuidados.
Esse episódio revela um profundo despreparo emocional e coletivo para lidar com os ciclos da vida. Mais do que isso, para ser socialmente aceito, é preciso apagar as marcas do envelhecimento. A rejeição é ainda maior quando a pessoa envelhece fragilizada e depende de cuidado, acompanhamento multiprofissional, presença constante, escuta atenta e acolhimento genuíno.
Como sociedade, parecemos desejar erguer tapumes simbólicos diante daquilo que nos lembra que o corpo envelhece, que o sofrimento existe, que a dependência pode chegar e que a morte é parte inseparável da experiência humana. Por isso, quando a velhice idealizada cede lugar à vulnerabilidade e revela nossa natureza humana frágil e finita, muitos passam a negar sua existência. No entanto, justamente nesse estágio, o cuidado se torna ainda mais essencial, mais humano e mais digno.
Precisam rever conceitos e preconceitos. As Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas devem ser espaços dedicados ao cuidado, à proteção, à convivência e à dignidade. Nestes locais, profissionais de diversas áreas — como cuidadores, enfermeiros, médicos, terapeutas, assistentes sociais, entre outros — investem seus esforços e vocação no compromisso ético de oferecer atenção contínua àqueles que necessitam de cuidados. Essas residências são fundamentais para garantir qualidade de vida e respeito às pessoas idosas, promovendo apoio integral e valorizando cada trajetória de vida.
Ali vivem pessoas reais, portadoras de histórias, memórias, sentimentos e direitos. Essas pessoas, que hoje estão velhas, e é fundamental que possamos dizer essa palavra sem receio, um dia foram crianças, adultos, profissionais, mães, pais, educadores, cuidadores e cidadãos que contribuíram para a sociedade. De fato, todos nós, em algum momento, seremos parte desse grupo, pois envelhecer não representa uma exceção à vida, mas sim sua continuidade natural. Envelhecer é um processo comum a todos, carregado de experiências, vínculos e trajetórias que merecem respeito e valorização.
Negar a permanência de uma ILPI na vizinhança revela uma das formas mais profundas e persistentes de idadismo: o chamado ILPIsmo, ou seja, o preconceito direcionado a instituições que acolhem e cuidam de pessoas idosas cuja família não consegue prover o cuidado necessário, ou que sequer dispõem de uma rede sociofamiliar de suporte. Ao transformar a presença da velhice e do cuidado em algo indesejável, acabamos por negar aspectos fundamentais da nossa própria humanidade.
Que este triste episódio sirva, ao menos, para recolocar na agenda pública brasileira a urgente discussão sobre idadismo, cuidado, envelhecimento e convivência intergeracional. Que ele nos obrigue a perguntar não onde devem estar as pessoas idosas, mas que sociedade queremos construir para viver e envelhecer.
Enfrentar o idadismo é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, na qual a dignidade e os direitos de todas as pessoas sejam plenamente respeitados e protegidos. Esse compromisso, que deve ser objetivo de toda sociedade, está no centro da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas.
Porque a forma como tratamos nossos velhos e as pessoas que precisam de cuidados continuados revela quem somos.
Associação Cuidadosa
Pelo cuidado, pela dignidade e pela visibilidade da velhice. Defendemos uma sociedade que não expulse o cuidado de seus territórios; que reconheça as ILPI como parte essencial das redes de atenção; e que compreenda que a presença da velhice não empobrece bairros nem comunidades — humaniza-os.
